sexta-feira, 16 de maio de 2008

Andaremos de carro, mas morreremos de fome!

Em épocas de histeria em massa, as soluções para os problemas geralmente causam mais e maiores problemas, uma vez que surgem não de análises lógicas e visão de longo prazo, e sim de interesses imediatistas, localizados e, muitas vezes, espúrios.

O alarmismo catastrófico que vem sendo causado pela mídia sobre o aquecimento global colocou os biocombustíveis no patamar de "salvadores do planeta". Os álcoois - principalmente o Etanol - tornou-se a panacéia para os males da queima dos combustíveis derivados do petróleo. Tido como "combustível limpo", o Etanol vem se tornando no derivado agrícola mais disputado pelo mundo globalizado e já se prevê que, em poucos anos, poderá suplantar o petróleo em preço. O mesmo vem ocorrendo com a soja em grão, cujo óleo vem sendo utilizado em misturas com o Diesel.

Como no Projeto SILI procuramos analisar os fatos independente do que é alardeado pela mídia, vamos considerar alguns fatores do uso mundial dos biocombustíveis:

1) A combustão é um processo de oxidação. O Etanol quando oxidado gera Etanal (Aldeído Etílico/Acético) primeiramente e Ácido Acético em oxidação total. Nos motores de automóveis a combustão nunca é total - motivo da liberação do monóxido de carbono - e carros movidos a álcool liberam quantidade significativa de aldeído na atmosfera. O efeito tóxico do aldeído acético é bem conhecido no corpo humano quando ingerido, não havendo, porém, muitas pesquisas quanto à inalação do mesmo. Assim, o poder poluente dos derivados da queima incompleta do Etanol não pode ser ignorado e exige maiores pesquisas. Com certeza, o álcool não é um combustível tão limpo assim;

2) O uso do Etanol como fonte energética pode ser a maior estupidez dos últimos tempos, conforme pesquisa do Prof. Tad Patzek da Universidade de Berkeley. Segundo o geoengenheiro, em termos de combustíveis renováveis, o Etanol obtido do milho é a pior das soluções, pois chega a custar 6 unidades de energia para gerar apenas 1, não havendo grande diferença quando se trata da cana-de-açúcar. Se considerarmos que o processo de obtenção do Etanol passa pela fermentação e subsequente destilação do extrato bruto, além da utilização de máquinas agrícolas, fertilizantes, pesticidas, herbicidas, etc. e juntarmos a isso o baixo valor energético gerado pela queima do álcool, poderemos entender o que quer dizer o pesquisador;

3) A extração de petróleo não ocupa praticamente nenhum espaço em terra. Enquanto um "cavalo-de-pau" - sistema utilizado desde o início da exploração até os dias de hoje - ocupa cerca de 100 m² e é capaz de bombear milhares de barris por ano, a mesma quantidade de Etanol só seria produzida por milhares de hectares de terra agriculturável em 2 safras anuais. Se considerarmos que em alguns países como o Brasil, terras de alta fertilidade, como a terra roxa do interior paulista, estão sendo utilizadas extensivamente com canaviais ao invés de estarem produzindo grãos de valor protéico, perceberemos que a relação custo-benefício é desfavorável aos combustíveis "verdes";

4) Analisando-se dados do IBGE para a safra 2007-2008, nota-se que cerca de 50% da área plantada no Brasil já se destina apenas às cultura de soja e cana. A soja sozinha já ocupa 20,5 milhões de hectares para um total de 57,7 milhões de hectares da safra geral. Isto seria ótimo se a soja, grão de alto valor protéico, fosse consumida largamente no Brasil, porém, por motivos vários (principalmente tradicionais) usamos basicamente o óleo de soja em nossa alimentação diária, o mesmo óleo que agora usam no biodiesel, o que fez os preços dispararem em poucos anos. Afora o óleo, a soja é em sua maioria exportada, sendo um dos 3 produtos de maior valor em nossas exportações atuais, junto com o petróleo (?!) e o ferro. A mesma tabela mostra que, nesse período, enquanto cresceram as áreas plantadas de soja e cana, as áreas de feijão, arroz e trigo diminuiram!

5) Já no início de 2008, no Forum de Davos, especialistas falavam do aumento generalizado do preço dos alimentos afetando principalmente a América Latina e África. O Prof. Homem de Melo da USP considera a atual alta dos alimentos como sem precedentes na História do Capitalismo e que este ciclo de alta será permanente. A FAO - organização da ONU para a alimentação e agricultura - registrou em março de 2008 um aumento de 57% no índice de preços alimentares em relação a março de 2007, atribuindo esse aumento, entre outros fatores, à produção dos biocombustíveis.

Creio que os dados e fatos aqui relatados já são suficientemente preocupantes, apesar de muitos outros existirem, entretanto, ambientalistas fanáticos ainda insistem em defender a produção dos biocombustíveis como se esses não liberassem o mesmo CO2 por eles classificados como o vilão do planeta. Nem mesmo atentam para o fato de que, para o Brasil poder produzir suficiente Etanol para abastecer os EUA, teríamos que devastar boa parte da Amazônia (ou quase toda) para se plantar cana, e isso em um solo sabidamente impróprio para culturas extensivas.

Não estamos aqui defendendo a perenização do petróleo como matriz combustível mundial, até porque as grandes corporações petrolíferas já chegaram à conclusão de que se extrair o ouro negro para simplesmente queimá-lo é um desperdício de uma matéria-prima que poderia ser usada na petroquímica gerando produtos de muito maior valor agregado do que combustíveis em geral. O que alertamos é para os interesses embutidos nos biocombustíveis, seja por corporações ou por países (como o Brasil), sempre unicamente visando muito mais projetos de Poder do que a defesa do meio ambiente.

Como repetimos frequentemente, a saída não está em substitutos paliativos que poderão gerar a fome mundial, mas em pesquisas sérias e sem direcionamento econômico que possam viabilizar a utilização de novas fontes de energia. Já existem alguns avanços significativos em termos de energia fotovoltaica (solar) e nas chamadas "células de hidrogênio" (temas de futuro artigo), mas ainda de forma muito inicial. Infelizmente, a ONU, subsidiária do governo dos EUA, não é capaz de liderar um esforço mundial de pesquisas nesse sentido.

Portanto, leitores, não se ufanem do futuro "promissor" do Brasil como supridor mundial de Etanol, pois corremos o risco de termos os tanques cheios e a barriga vazia!

Um comentário:

Gustavo Zedy Miranda Forte disse...

Olá. Seu blog foi (finalmente) adicionado ao LDC. Desculpas pela demora. []'s!